30 maio, 2006

Retratos originais de uma filosofia gráfica (III)

Transformo-me. Todos os dias. Não tenciono auferir de um conhecimento muito abrangente daquilo que me constitui. Quero saber movimentar-me, atingir a meta rápida de uma satisfação efémera. Perene é o que não sou. Tudo aquilo que não alcanço. Sou na verdade definido por aquilo que não faço, por aquilo que não sou, por tudo o que não vêem em mim. Porque esse eu que não se revela nem nunca revelará é a perenidade em mim. É aquilo que sempre me acompanhará.
Não invento novas personagens, sou uma multi-personagem eterna cuja construção inacabada é ela mesma o fim pelo qual me guio e chego a uma certeza em mim. Temo que o seja involuntariamente, ainda que tente sempre novas formas de me definir, essas tentativas são sempre díspares. E é essa diferença de esquemas a que me auto-inflinjo que me torna mutável. Perenemente mutável. Na verdade não quero um objectivo específico, apenas manter-me o que não sou, porque isso diz quem aqui dentro habita!

26 maio, 2006

Central America

El Salavador
Tijuana
Panamá...
Floresta verda na Costa Rica
Praia no Belize
Cidade de Manágua
Nas honduras
promenor da guatemala

Doors lit up bright
Others delight
Drift off to another white
Why are you out of sight

Knew you would leave
Your goal is more important than my grief
I used to love what I do
You left and took my passion with you

Where did I go wrong
You took the air out of my lungs
Slowly losing my pass
My mind and heart are out of phase

Where did I go wrong
I'm hearing a gong announcing our final round
It doesn't matter who wins
Or even who will begin to see that you and I are one

hooverphonic

25 maio, 2006

ICBAS, 1º piso, 3º degrau, à esquerda


Hoje tenho a sensação
de um curpúsculo infinetesimal que me atravessa.
Fugas de luz intempestiva,
que se juntam e lamentam a indefinição do prazer.
Não caibo em 7 vidas,
nem na passividade aguda de um instrumento fútil!
Extravaso-me e não mais me alcanço,
perco-me no repentino humor de
uma odisseia que peca na matéria indefinível da vontade!

Estou cansado! Desiludido.
Frustrado por não mais encontrar
a condição sine qua none do
prazer que fica, que se sucede
em haustos consecutivos para a perenidade!

Vontade de morrer, ai ver tudo de novo!
Imaginar-me num romance disfuncional
que se estenda para lá
desta aura de desorientação!

When the day is long and the night,
the night is yours alone,
When you’re sure you’ve had enough of this life, well hang on.
Don’t let yourself go, everybody cries and everybody hurts sometimes.
Sometimes everything is wrong.
Now it’s time to sing along.
When your day is night alone,
If you feel like letting go,
When you think you’ve had too much of this life, well hang on.
Everybody hurts.
Take comfort in your friends.
Everybody hurts.
Don’t throw your hand. Oh, no.
Don’t throw your hand.
If you feel like you’re alone, no, no, no, you are not alone
If you’re on your own in this life, the days and nights are long,
When you think you’ve had too much of this life to hang on.
Well, everybody hurts sometimes,
Everybody cries.
And everybody hurts sometimes.
And everybody hurts sometimes.
So, hold on, hold on. Hold on, hold on. Hold on, hold on. Hold on, hold on.

23 maio, 2006

Os dois da vida airada...


Agora, vou contar uma historinha deliciosa sobre o Hospital de Stº António...
Anda por lá um sr. Director, Dr., Professor, etc. cuja plaquinha o identifica como director do departamento do ensino, cabelo pelos ombros, mas bem aparadinho, barba milenar mas feita a rigor, uma careca que reluz e uns óculos bem colocados, que não conhece o conceito de "abuso do poder". Isto porque ele se acha o próprio poder...! E como ninguém quer abusar dele...
Entretanto surgiu há uns poucos aninhos, um rapaz muito lingrinhas, amarelado do tipo doentio, baixo como um marreco e com os ossinhos frágeis do corpo salientes, que encontrou o seu verdadeiro caminho, andando sobre o rasto do sr. director...
Ora estas figuras de algibeira, até nem me incomodariam muito se fossem apenas mais um lapso histérico da minha imaginação... Mas não são! Um é o director do departamento que me rege naquele hospital. O outro foi durante dez semanas meu tutor e trabalha para o primeiro!
O que me deixa descompensado pela raiva, é que estes senhores infrigem leis, passam por cima de regulamentos, ditam ordens conforme lhes apetece e só o fazem, quando sabem que aqueles que têm de as acatar estão com a corda na garganta...
Primeiro instituem precedências ilegalmente, depois puxam os alunos de lado e dizem-lhes coisas do género: "ai, nós não podemos proibí-los de frequentar a cadeira, mas também não vos deixamos ver doentes e é certo que no final reprovam..."! Infelizmente, aqueles que são sujeitos a esta provação só têm 2 hipóteses: ou cumprem o que eles ditam e fazem a cadeira ilegalmente no ano seguinte, ou revoltam-se, denunciam e... ficam um ano inteiro no desemprego, a sobreviver à custa do ar....
A todos os que por aqui passam e lêem o que aqui se escreve, peço as mais sinceras desculpas por aquilo que vou agora escrever:
GRANDES FILHOS DA PUTA, CARECA VELHO CABRÃO DITADOR IRRESPONSÁVEL E BURRINHO, PUTO ESTÚPIDO LINGRINHAS ARROGANTE COM A PUTA DA MANIA QUE SABE E DEIXA OS DOENTES COM MEDICAÇÕES ERRADAS PORQUE FICOU A DORMIR...

Mais uma vez desculpem qualquer coisa e muito obrigado

Bruno Maia

P.S. Não, não fui eu que vivi a situação... mas não consigo parar de me espumar e nem percebo como apenas se pode ficar ligeiramente "tocado" e um pouquinho "revoltado" com esta merda!

GRRRRRR.....


Por vezes, não muitas.. mas não tão poucas quanto isso, gostava mesmo de possuir um objecto destes para cortar as cabeças de tantos males errantes que por aí andam, a ditar leis e filosofias...

18 maio, 2006

Ao ataque...


Texto de abertura da página das Panteras em Montreal:

WARNING: The Pink Panthers [Montréal] site contains explicit material, notably texts and images presenting capitalism and patriarchy in the nude. Additionally, we’ve got rich gay businessmen in bed with homophobic corporations, fucking over the rest of the world. We just wanted to warn you.

Retratos originais de uma filosofia gráfica (II)

Vivemos no limiar de uma autoridade autista. Um esforço incomportável de inalterância. Uma corda rotativa cuja magnitude de expansão supera a sua ausência de expressão. Uma corda infinita, cercada por vácuo. Uma continuidade onde se inscrevem os momentos inaudíveis a que chamamos passado, presente e futuro.
Mas onde estão esses lugares de contornos tão voláteis quanto a realidade instantânea com que se definem? O que é o presente? Acabou de passar? Está mesmo aqui à porta? E quantos passados já passados eram futuro? E quantos presentes são agora passados mas foram futuros num passado que era posterior a esse presente?Como que inadvertidamente, os vectores não são concebíveis em experiência verosímil. O repartir do tempo não encaixa numa definição conceptualíssima daquilo que ele próprio define. Não há compartimentos assimiláveis! Há constância de uma única variável! Não há tempos! Há tempo!
O fim e o princípio são as delimitações modificáveis dos vários momentos que nos atravessam, eles próprios em mutação. Fim e princípio co-existem em tudo. Mas não se aplicam ao tempo. Porque ele é soberano sobre todos os momentos! Porque ele é intocável nos seus aluicerces! Nada o condiciona, nada o rege! Não há fim que o silencie, nem princípio que o ilumine!

08 maio, 2006

Retratos originais de uma filosofia gráfica I


Sempre a mesma pele. Cansado. Transfigurado pela insónia de uma oportunidade esgotável que se repete como uma esfera de monotonia à qual me aprisiono voluntariamente. A brisa invade-me e presenteia-me com o odor renovável de um anúncio já fruído. E novamente anunciado. A grafia de uma vida, ou de várias vidas, ou de todas as vidas não é a metamorfose infinita com que se reveste no início do incauto processo.
É sempre a mesma grafia.
É sempre o mesmo odor.
Inesgotável ciclo que se perpetua, hostil e incontornável. A aprendizagem não decorre da memória, esgota-se nela! A experiência não fortifica o ensinamento, contrapõe-no! Haverá memória no tempo? Haverá experiência cujo tempo não impluda?Deus? Quem? Imagem idealizável do impossível e eterno esforço? A morte? Vencida repetidamente pelo berço novo? Não. O tempo. Que perenemente nos transporta ao cais do começo. que ocasionalmente nos embarca numa viagem cujo destino está pré-escrito.
Somos porque o somos obrigados a ser. A arte do tempo não tem nada de artístico, nem a sua ciência de científico. É imparável, é indiferente. É desumano. Desconhece hedonismo, despreza o transcendentismo.

O que são "culpados"?


Laramie, Portugal
Texto de Fernanda Câncio no DN de 06-05-06
É um fosso com mais de dez metros, cheio de água suja, num prédio inacabado do Porto. Foi aí que a encontraram: calças nos joelhos, queimaduras, sinais de espancamento. Os miúdos dizem que lhe fizeram o que quiseram durante dias - dois, três? -, que lhe arremessaram pedras e pontapés, lhe enfiaram paus no ânus, a insultaram e seviciaram até lhes parecer que já não respirava. Aí, dizem, resolveram livrar-se do corpo.
A autópsia diz que ela morreu afogada. O mais certo é, aliás, que diga ele. O corpo pescado do fosso tinha órgãos genitais masculinos e nos seus papéis o nome de Gisberto Salce Júnior, mesmo se havia seios cirurgicamente implantados e um rosto que foi o de uma mulher bonita. Na morte, talvez fosse outra coisa - um mutante, uma aberração atreita a estremecer conceitos e atrair violências.
Os miúdos têm entre 13 e 16 anos. O mais velho foi posto em prisão preventiva e libertado ao fim de dois meses - fez ontem uma semana. A investigação da PJ não consubstancia a tese de homicídio e os outros testemunharam que ele esteve lá, fez parte, mas não teve culpa.
Valerá a pena lembrar que os jovens sabem que a partir dos 16 anos se paga à séria pelos crimes. Que, como as pessoas crescidas, mentem e tanto mais quanto maior o sarilho. Mas isso nem é o que mais importa: o que mais importa é a óbvia vontade, desde o início, de não querer acreditar que seja possível um bando de "miúdos nossos" ter feito aquilo. Num país onde uma mulher e o seu irmão foram condenados a 20 anos de prisão pela morte da respectiva filha e sobrinha, uma criança cujo corpo nunca apareceu, com base numa coisa chamada "convicção", um corpo pode apresentar irrefutáveis provas de tortura e homicídio que coincidem com a confissão dos suspeitos e tudo se encaminhar para não haver culpados.
E se fossem culpados, que faríamos com eles? O que é que se faz com adolescentes que se comprazem em levar uma pessoa à agonia e em vê-la agonizar? Proíbem-se-lhes os Morangos com Açúcar e a playstation durante um mês? Obrigam-se a uma "conversa séria"? Curioso: nada transpirou do que dizem os miúdos para justificar o que confessam ter feito. Não lhes perguntaram, eles não responderam, ou a resposta é demasiado terrível?
E, no entanto, "eles têm de ser os nossos professores", como diz o padre católico em Laramie, a peça em cena no Maria Matos sobre o homicídio, em 1998, nos EUA, de um homossexual de 21 anos por dois jovens: "Como é que vocês aprenderam isso? O que é que nós, enquanto sociedade, fizemos para vos ensinar isso? Acho que seria fantástico se o juiz dissesse: 'Para além da vossa sentença, têm de contar a vossa história.'"

04 maio, 2006

ainda a liberdade


Quando o avião aqui chegou
quando o mês de Maio começou
eu olhei para ti
então entendi
foi um sonho mau que já passou
foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
uma flor vermelha n'outra mão
tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a fronteira me abraçou
foi esta bagagem que encontrou

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei p'ra'qui chegar
Eu vou p'ra longe
p'ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p'ra nos dar

E então olhei à minha volta
vi tanta esperança andar à solta
que não exitei
e os hinos cantei
foram feitos do meu coração
feitos de alegria e de paixão

Quando a nossa festa s'estragou
e o mês de Novembro se vingou
eu olhei p'ra ti
e então entendi
foi um sonho lindo que acabou
houve aqui alguém que se enganou

Tinha esta viola numa mão
coisas começadas noutra mão
tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a espingarda se virou
foi p'ra esta força que apontou

José Mário Branco

Tardes no progresso...



"Languidez"

Tardes da minha terra, doce encanto,
Tardes duma pureza de açucenas,
Tardes de sonho, as tardes de novenas,
Tardes de portugal, as tardes de Anto,

Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!
Horas benditas, leves como penas,
Horas de fumo e cinza, horas serenas,
Minhas horas de dor em que eu sou santo!

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar...

E a minha boca tem uns beijos mudos...
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar...

Florbela Espanca

03 maio, 2006

Lisboetas, de Sérgio Trefaut


Verdadeiro frio...
Verdadeiro desassossego...

Em exibição até amanhã no Tetro do Campo Alegre