30 outubro, 2006
Ah, se eu usasse camisa cor-de-rosa...

Ai, se eu usasse camisa cor-de-rosa
Sapato de vela
Frequentasse as discotecas mais in desta cidade
Fingisse uma heterossexualidade absoluta
Tivesse um bom conforto monetário (ou fingia tê-lo)
Despojasse o meu cérebro de trabalhos
E dedicasse o meu pensamento à roupa,
às festas, ao futebol, à cilindrada do meu carro,
às gajas...
Estudasse muito para entrar em Medicina..
Concordasse com tudo para chegar à AE,
Decorasse dez poemas,
Frequentasse o Teatro Nacional uma vez por ano,
Lêsse um best-seller por ano,
para fingir cultura!
Se ouvisse house comercial,
Conhecesse dois ou três cantores de jazz,
Bebesse muita vodka nas festas,
Vestisse um traje académico
E insultasse meia dúzia de murcões
Como a vida era tão fácil...
Era tão fácil, se eu usasse camisa cor-de-rosa
11 outubro, 2006
"Ah, compreendo! O patrão Vasques é a Vida. A Vida, monótona e necessária, mandante e desconhecida. Este homem banal representa a banalidade da Vida. Ele é tudo para mim, por fora, porque a Vida é tudo para mim por fora.
E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente. Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução."
E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente. Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução."
Bernardo Soares
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